3 de março de 2012

Wellyson Marlon Jr. :Análise Crítica


Wellyson Marlon Jr. faz crítica de A Música segundo Tom Jobim, filme de Nelson Pereira dos Santos: Todos os Tons de Tom



A simples notícia de que Nelson Pereira dos Santos fez um filme sobre Tom Jobim já provoca ansiedade. Afinal, é o encontro entre dois expoentes de nossa modernidade, ícones do Cinema Novo e da Bossa Nova, movimentos que, ao lado da construção de Brasília e a aparição de Pelé, modificaram para sempre o olhar sobre este país, até então conhecido como a “Terra de Zé Carioca”.

Para não sobrar nem pau nem pedra, Nelson — que também é imortal da ABL — realizou logo dois filme
s no fim do caminho. O primeiro deles, já em cartaz, é A Música Segundo Tom Jobim, um desfile de suas canções mais famosas, e vem aí, com lançamento para o segundo semestre, A Luz do Tom, baseado no livro Antonio Carlos Jobim: Um Homem Iluminado, escrito por Helena Jobim, irmã do maestro. Como o segundo filme terá depoimentos e Jobim era reconhecido como um grande papo, a continuação pode parecer mais atraente. Pode até ser. Mas em A Música Segundo Tom Jobim, a catarse é garantida.

Autor de comentários definitivos, muita gente se deleitou com suas frases de efeito: “A melhor saída para o músico brasileiro continua sendo o Aeroporto Galeão”; “Assim como o brasileiro foi educado para perder, o americano foi educado para ganhar”; “O Brasil, definitivamente, não é para principiantes”; “Nenhuma situação é tão complicada que uma mulher não possa piorar”; “No Brasil, sucesso é ofensa pessoal” etc. Em entrevista à revista Veja, de 1988, Tom Jobim foi enérgico e categórico quando
indagado de que a Bossa Nova não é música brasileira segundo alguns críticos: “A Bossa Nova é um negócio que apareceu com um baiano chamado João Gilberto, que é um cara de um talento genial. Aí vem um Paulo Francis e escreve — “A Bossa Nova é 50% jazz.” — Mentira. É um troço brasileiro que surgiu aqui com Chega de Saudade, com uma introdução tipo choro, e não tem nada de jazz.”

Dora Jobim, neta de Tom, atuou como codiretora do primeiro longa. Ao lado do pesquisador Antonio Venâncio e auxiliada pela tia Miúcha Buarque de Holanda, que atuou como roteirista-conselheira, Dora escarafunchou o acervo familiar de filmes sobre o avô, acervos alheios e atravessou madrugadas navegando na internet atrás de imagens maravilhosas, muito bem alinhavadas pela edição. O músico Paulo Jobim, pai de Dora e diretor musical do filme, deu o parecer final sobre a qualidade acústico-musical dos vídeos e a magia se fez.

A história musical de Tom Jobim é contada em imagens atemporais. Assim, Gal Costa vem antes de Elizeth Cardoso e Adriana Calcanhoto interpreta Ela é Carioca, composta dois anos antes de ela nascer. Por uma triste coincidência, João Gilberto não aparece (aliás, surge rapidamente tocando violão para Elizeth, em trecho do filme Pista de Grama, de 1958), pois suas imagens estão sendo utilizadas para a produção de um filme sobre ele próprio. Todavia o desfile é avassalador. Do dueto de Elis (Regina) e Tom em Águas de Março, à precisão cirúrgica do piano de Oscar Peterson em Wave ou a dramaticidade de Judy Garland em Insensatez, o filme é só surpresas.

Nelson não utilizou palavras nem mesmo para identificar os artistas (o que ocorre, em detalhes e pausadamente, nos letreiros finais). O diretor preferiu mergulhar o público na emoção pura da composição e da interpretação, achando que as grifes poderiam atrapalhar. Bem-humorado, na entrevista coletiva, ele disse que a falta de letreiros é uma boa chance para os metidos exibirem seu conhecimento para as donzelas: “Ah, este é o Jean Sablon, aquele é o Sammy Davis Jr.!” A eterna parceria com Vinícius de Moraes, ou as inúmeras interpretações de Garota de Ipanema, entre outros momentos criam clareiras iluminadas no filme. Maravilhoso e ponto. Nada melhor que transferir à palavra ao escritor Ruy Castro que, em A onda que se
ergueu no mar, sobre Tom Jobim afirmou: “ele tornou universal o seu universo”.

Wellyson Marlon Jr foi Vencedor do Concurso de Conhecimentos Gerais Show do Lordão, Soletrando, Autor do filme Amor, Paixão e Revolução, Vencedor do Concurso de Monografias Felipe Tiago Gomes, é escritor e crítico de Cinema.

 

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